O Islam e o Hafez
- Admin
- Dec 30, 2025
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Analogias são, por serem tão matemáticas, um jeito ótimo de entender o mundo num primeiro momento. É como entender Bhaskara: você aprende que funciona, mas chega a um ponto em que Bhaskara não se aplica — talvez seja aí que a pessoa realmente começa a entender matemática.

Quando comecei a estudar os poetas persas (Rumi e Hafez), consegui pescar uma analogia que por muito tempo me ajudou a compreender quem eles eram: os gnósticos estão para o cristianismo como Hafez estaria para o islamismo. (Vou chamá-los de Hafez, apesar de ser apenas o nome de um dos poetas, o mais bocudo; em alemão, esse termo é usado para designar, de modo geral, aquele que decorou o Alcorão e questiona o seu moralismo).
Quando engravidei da minha filha mais velha, ainda morávamos em uma república de estudantes na universidade. Eu estudava alemão todos os dias em um curso intensivo na Universidade e o pai das crianças começava um mestrado. Naquela época, tínhamos amigos curdos e do Iêmen que estavam na Europa estudando, e gostávamos de fazer música noite adentro, dias a fora. Foi então que ouvi pela primeira vez uma canção em árabe sendo cantada. Senti, dentro do meu coração, a beleza disso tão profundamente (ainda temos essas gravações em algum lugar) que me apaixonei perdidamente pela língua e dei à minha primeira filha um nome árabe comum — Nur —, o que facilita enormemente a vida dela hoje na Alemanha polarizada.
Engraçado como a gente não tira o deserto das pessoas. Quem passou pelo deserto carrega o deserto em si. O deserto se tornará verde como pasto, mas nunca será pasto de nascença. Essas foram coisas que pude entender apenas atravessando um deserto espiritual.
Onde você não sabe o fim nem o começo. Tudo que há é o deserto: o dia, a noite, a sede e o céu.
Como, meu Deus, poderíamos compreender o que passavam esses homens em cima de seus camelos, atravessando noites frias? Como poderiam pensar em Deus enquanto se desafiavam ao deserto? Como seguir em frente? Como atravessar tanto ali, logo ao lado do Jardim do Éden, enquanto toda a glória era dada àqueles que nasceram com campos verdes e não conheciam suas lutas?
Como lembrar da promessa feita àquele que teve coragem de chegar ao fim daquilo, ao ouvir das estrelas uma promessa?
Qual seria o tamanho da dor de Abraão quando, deitado em sua tenda, ouviu de Deus:
“Levanta-te, sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. [...] À tua descendência darei esta terra.” (Gênesis 12:1-7)

Era década de 1950. Vivíamos um grande boom econômico. Os grandes lobistas viajavam àquelas bandas para comprar suas joias, suas tapeçarias, fazer grandes negócios com diamantes e pedras. Mas aquele povo, que carregava o deserto em si, ainda não via a promessa se cumprir. Muito provavelmente, já havia tanto do deserto neles que os corações haviam se enfriado.
“O deserto e a terra seca se alegrarão; o ermo exultará e florescerá como o narciso.Florescerá abundantemente, exultará com alegria e cantará; a glória do Líbano lhe será dada, a magnificência do Carmelo e de Sarom; eles verão a glória do Senhor, a magnificência do nosso Deus.” (Isaías 35:1-2)
Para mim, aqui está o grande turning point para entender o Islã. Não podemos compreender o Islã sem chegar ao seu coração. Assim como para nós a cruz é o coração dos cristãos, e para os judeus o Muro das Lamentações, qual seria simbolicamente o coração desse povo?
Seriam os tapetes feitos à mão? Hoje sei que sim. Aquilo que transforma o deserto em um palácio, sempre que Deus os chama a rezar e clamar, testando sua fé.
É indescritível chegar ao momento em que você entende o porquê das coisas serem como são, que há um plano em andamento e ele não tem começo, meio ou fim. O grande mistério pensou em cada um de seus filhos de modo que cada um aprendesse o que precisava e também aprendêssemos uns com os outros.
A quem foram dados os pastos, será dada a cruz. A quem foi dado o deserto, será concedido o espírito, para aquecer corações cansados, tornando a vida mais fácil.
Mas então seria para o muçulmano aceitar o espírito seu grande desafio? Assim como para nós é aceitar a cruz e, para os judeus, aceitar que erraram enormemente e não poderão consertar sem que o Messias chegue?
Pensei tanto nessas coisas enquanto lia os textos que, diga-se de passagem, entendi muito pouco. Mas quando compreendia um texto persa (traduzido para o alemão — grande equívoco), era como se entendesse para sempre e com o corpo inteiro.
E é curioso como o álcool tem papel fundamental em compreender as coisas do espírito, inclusive essa. Do árabe, a palavra alcohol, como sabem, significa em sua raiz “aquilo que retira a essência”.
Para nós, católicos, o álcool é peça fundamental, onde está o espírito. É a alquimia mais básica: a junção do tempo e da doçura, aquilo que desperta.
Qual a essência que o Alcorão quer que o álcool preserve, e por isso proíbe? No começo do Alcorão, o profeta diz que ele pode trazer benefícios; já no fim, proíbe veementemente e o classifica como obra satânica.
O vinho é central no cristianismo. O espírito é o descontrole total. A tradição católica compara o espírito à correnteza de um rio, aquilo que é de Deus e age juntamente com o mistério de forma material sobre nós. É o motivo de toda sobrenaturalidade que experienciamos quando nos entregamos à fé. É algo que não se controla.
Por isso, quando algumas pessoas bebem, perdem o controle. O álcool faz o espírito agir em você e talvez tudo que o espírito queira é que você se confronte com aquilo que está ali dentro.
Seria esse o segundo turning point do Islã?
Pensando agora nos Hafez — que, em árabe, significa “aquele que decorou o Alcorão” — qual seria o papel do poeta que colocou em jogo a questão do álcool?
“Eles se ajoelham, lavam as mãos, mas têm o coração seco; dá-me o vinho que enche a alma e não a taça.”
Ou ainda:
“Se queres conhecer Deus, bebe o vinho que não tem nome; derrama-o sobre teus medos e sobre tuas orações rígidas.”
Termino este texto com alguns questionamentos: quando agimos com presunção quanto ao nosso Cristo e desejamos a todo custo que ele salve até mesmo os muçulmanos, não estaremos agindo com presunção? Quando o próprio Jesus disse que apenas Deus conhece nossos corações, e que cada um será julgado de acordo com aquilo que sabia, não estaríamos nós desrespeitando sua humanidade? Afinal, ele morreu como homem.
Será mesmo que Jesus não foi presunçoso ao acreditar, ainda que por um breve momento, que reinaria sobre aquele povo? Pois se ele também foi tentado no deserto, por que não seria tentado ao assumir o trono?
E se a presunção tomou seu coração por apenas um segundo?
Não seria então a loucura da cruz o NOSSO unico remédio?
Será que a cruz não nos veio ensinar exatamente o que precisávamos saber, para aprendermos com nosso irmão mais velho e vê-lo como modelo?
São apenas os meus questionamentos.
Desejo a todos um feliz fim de Advento. Que possamos nos renovar a cada dia na Palavra e no nosso amor por ela e ao nosso verdadeiro Pai, o celeste.
Flávia



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